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    Home»Cidades»Bahia registra mais de 4 mil ocorrências de desaparecimentos, aponta Sinesp; Delegada alerta sobre o “mito das 24h”
    Cidades

    Bahia registra mais de 4 mil ocorrências de desaparecimentos, aponta Sinesp; Delegada alerta sobre o “mito das 24h”

    jaironascimentoFonte: jaironascimento30 de maio de 2026Nenhum comentário
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    A Bahia registrou 4.163 casos de pessoas desaparecidas no ano de 2025, conforme os registros do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Os números colocam a Bahia no sexto lugar do ranking nacional de pessoas desaparecidas. Ao todo, foram registradas 85.232 ocorrências de desaparecimento em todo o país no ano passado.

    O Sinesp utiliza, principalmente, dados divulgados pelas Secretarias de Segurança Pública dos estados e do Distrito Federal. Segundo o governo federal, as informações são extraídas de forma contínua a partir dos boletins de ocorrência.

    O número diverge do divulgado pela Polícia Civil da Bahia, que realiza a contagem por meio do Instituto de Segurança Pública, Estatística e Pesquisa Criminal (ISPE). Conforme o ISPE, foram registrados 730 desaparecimentos. Dados divulgados ao Bahia Notícias apontam que o número é inferior ao de 2024, quando foram computados 791 registros de pessoas desaparecidas.

    No que diz respeito ao perfil dos desaparecidos, o Sinesp apontou que pessoas do sexo masculino somam mais de 64% do total de ocorrências, totalizando 2.680 delas. Os casos envolvendo mulheres foram 1.382, correspondendo a cerca de 33,20%. Outros 101 casos não tiveram registro de gênero.

    No que diz respeito à faixa etária, o Sistema Nacional apenas divulga os números de maiores e menores de 18 anos. Entre os adultos foram 3.094 registros, enquanto 980 foram de pessoas de 0 a 17 anos. Os dados apontam que 89 ocorrências não contavam com as informações de idade das pessoas envolvidas.

    Na Bahia, a operacionalização das ações de segurança pública voltadas a pessoas desaparecidas ocorre por meio do Departamento de Proteção à Pessoa (DPP), unidade vinculada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), lotados em Salvador. Já no interior do estado, os procedimentos são dirigidos pelas Delegacias Territoriais de cada município.


    Delegada Ana Cristina Carvalho, titular do Departamento de Proteção a Pessoa. Foto: Mariana Ribeiro / Bahia Notícias 

    Quem explica os procedimentos de atuação das forças de segurança é a delegada Ana Cristina Carvalho, titular do DPP. Em entrevista concedida ao Bahia Notícias na última quarta-feira (27), a gestora destacou as principais frentes de atuação do Departamento e as dificuldades nos registros de desaparecimento e de possível localização de pessoas desaparecidas no estado.

    Confira a entrevista completa:

    PROTEÇÃO À PESSOA
    Ao Bahia Notícias, a delegada Ana Cristina Carvalho detalha que a triagem é um dos principais passos da atuação da Polícia Civil na investigação de desaparecidos. Segundo ela, tudo começa pelo local do desaparecimento.

    “[No DPP] Os casos que a gente investiga são os desaparecimentos ocorridos na cidade de Salvador. Os casos que ocorrem no estado como um todo, região metropolitana e interior, são investigados pelas delegacias territoriais de onde ocorreu o fato. A gente sempre frisa essa questão do local do desaparecimento. É o local de onde a pessoa desapareceu, onde se teve a última informação dela”, contextualiza.

    Segundo ela, uma das principais frentes de atuação do DPP é a garantia da divulgação dos perfis dos desaparecidos conforme a liberação dos comunicantes. “O DPP faz um trabalho de acompanhamento e principalmente a divulgação da imagem dessa pessoa desaparecida nas nossas redes sociais, caso a família, o comunicante, faça a autorização de divulgação da imagem no registro da ocorrência e se também fornecer uma foto que seja compatível”.

    Atualmente, a Polícia Civil divulga imagens dos desaparecidos no perfil (@desaparecidospcba) no Instagram e no site (clique aqui.). Segundo a delegada, as imagens são imprescindíveis para a utilização das ferramentas tecnológicas de busca e divulgação.

    “Se eu envio para o setor responsável, que é a STelecom, da Secretaria de Segurança Pública, uma foto que não corresponde à pessoa, como ela está atualmente ou como ela estava quando do desaparecimento, isso pode ocorrer em uma situação de localização errônea e com consequências bastante delicadas”, sustenta.

    A delegada Ana Cristina explica que, “pelo protocolo do reconhecimento facial, tão logo seja alarmado no sistema que aquela pessoa é de fato a pessoa procurada — ou desaparecida, melhor dizendo —, o sistema aciona a guarnição que mais próxima estiver para que aquela pessoa seja abordada, seja confirmado que se trata dela e ela seja apresentada no DPP ou na Delegacia Territorial onde foi registrado a ocorrência”.

    “Você imagina a situação: essa pessoa com uma foto que não corresponde pode, inclusive, levar a um reconhecimento negativo. Mas isso não é por questão do sistema, é por questão da informação dada pela própria família, pelo comunicante quando do registro da ocorrência”, completa.

    Segundo ela, o mesmo ocorre com relação a informações sobre a própria pessoa desaparecida — como moradia, altura média e outros dados de perfil — e das circunstâncias do desaparecimento — como local do fato, possível antecedente criminal ou ameaças, e histórico da pessoa. Omissões ou erros nesse compartilhamento de informações nos registros podem levar a vertentes de investigação e buscas errôneas.

    “Infelizmente, tem sido recorrente a gente ter dados não informados ou que não correspondem à realidade, e isso é desastroso para a minha investigação. Eu tenho feito relatórios, inclusive para a gestão do Departamento de Homicídios, informando essas situações porque nós somos muito cobrados. E quando a gente vê um caso que toma um outro rumo, porque a gente acaba descobrindo que a história não é bem aquela, é extremamente desgastante para a gente. É uma perda de tempo realmente, quando outro direcionamento poderia ter sido dado à investigação”, detalha a delegada.

    TEMPO DE UMA VIDA
    “Em 24 horas essa pessoa pode estar em risco”. É o que diz a delegada Ana Cristina, em resposta a um dos maiores mitos do registro de desaparecidos no Brasil. Segundo a titular do DPP, o mito de aguardar uma suposta “consolidação” do desaparecimento pode prejudicar a investigação, especialmente considerando públicos vulneráveis.

    “A gente, inclusive, pede que as pessoas registrem de imediato. Porque imagine se você tem uma criança na família e essa criança some, né? Quanto mais nova a criança, maior a dificuldade de verbalizar, de se comunicar, de informar. [Imagine] Um idoso que esteja com Alzheimer ou alguma situação de esquecimento, ou uma pessoa que tenha distúrbio ou transtorno… Você imagina esperar 24 horas para fazer esse registro? Essa pessoa está em risco”, afirma.

    Segundo ela, “em 24 horas, o tanto de coisas que a gente faz, o tanto de deslocamentos que a gente realiza”, representam um tempo precioso das buscas. “Então, a gente pede sempre que procurem a polícia de imediato e façam o registro para que a gente realize a investigação nos moldes que temos feito”, conclui de forma sucinta.

    Para realizar o procedimento inicial de triagem e anamnese dos casos registrados, Ana Cristina conta que o processo é simples, porém detalhista. “Quando a pessoa registra o boletim de ocorrência, uma das primeiras coisas que a gente faz envolve um protocolo bastante minucioso; então, a gente procura saber quem é aquela pessoa. O que ela faz, se ela trabalha, se ela estuda, quais são os seus hábitos e os dados de identificação civil”, explica.

    A titular do DPP conta que os investigadores chegam a ser muito específicos: “A gente chega até a perguntar: ‘usa prótese?’, ‘muleta?’, ‘tem alguma cicatriz?’, ‘tem tatuagens?’, porque a gente nunca pode desconsiderar como essa pessoa vai ser encontrada”. Em casos de infortúnios ou até mesmo investigações criminais, essas informações são determinantes.

    “Como a gente já teve muitos casos de ser encontrado um corpo no IML sem identificação e, pelas características descritas pela família, a gente acaba fazendo o confronto e descobrindo que se trata daquela pessoa desaparecida”, afirma.

    Em seguida, o registro da ocorrência já permite que a polícia padronize “cards” de busca com imagens e as principais declarações prestadas sobre o desaparecimento. Para Ana Cristina, “o reconhecimento facial tem sido praxe”.

    “O que a gente faz é colocar o card no reconhecimento facial para que quaisquer câmeras do sistema da Secretaria de Segurança Pública, na capital e no interior — salientando que onde tem CICON, nas principais cidades do interior, essas imagens também ficam disponibilizadas —, identifiquem o alvo. E, independentemente das características da pessoa, a gente direciona a investigação”, aponta.


    Foto: Mariana Ribeiro / Bahia Notícias 

    A delegada destaca que para públicos vulneráveis, apesar de o protocolo base ser o mesmo, em alguns casos é possível utilizar ferramentas específicas nas buscas e investigações. Um exemplo é a parceria entre o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) e a Meta, conglomerado de tecnologia ao qual pertencem o Facebook, Instagram, Messenger e WhatsApp.

    A parceria técnica utiliza a ferramenta AMBER Alerts no Instagram e Facebook para divulgar fotos e informações de crianças e adolescentes desaparecidos para usuários em um raio de até 160 km do local do desaparecimento. “A Bahia aderiu no ano passado e nós somos signatários deste acordo”, afirma Ana Cristina.

    “Nos casos de desaparecimento de crianças e adolescentes — aí vem a urgência do registro imediato, que tenham sido registrados em até 24 horas e que a gente prove que aquela criança ou adolescente está em risco —, a gente faz todo esse procedimento de autorização de divulgação de imagem e essa imagem vai para o Cyberlab em Brasília, que é do Ministério da Justiça, e eles fazem a intermediação com a Meta”.

    A imagem das crianças fica disponibilizada no Facebook e no Instagram durante 24 horas, podendo a publicação ser prorrogada em caso de maior comprovação de risco. Sobre o impacto positivo desta tecnologia, a delegada exemplifica: “Imagine uma criança ou adolescente que desaparece em Salvador e essa imagem aparece em todos os feeds de Instagram e Facebook para além de Feira de Santana, por exemplo, que fica a 110 km de Salvador”.

    Outra inovação relacionada à busca por crianças desaparecidas foi lançada nesta semana. O MJSP e a Uber firmaram, nesta quarta-feira (27), um acordo de cooperação para ampliar o projeto Amber Alert Brasil como um mecanismo de fortalecimento das buscas. Com a parceria, usuários e motoristas parceiros da plataforma passarão a receber alertas emitidos pelo Cyberlab da Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) em casos de desaparecimento com risco iminente.

    No entanto, nem toda tecnologia utilizada para tentar concluir os casos de desaparecimento é vinculada ao suporte digital ou a buscas externas. Ainda em agosto do ano passado, o Departamento de Proteção à Pessoa (DPP) e o Departamento de Polícia Técnica (DPT) participaram de uma Campanha Nacional de Busca por Pessoas Desaparecidas, que realizou um mutirão para incluir o DNA dos familiares de pessoas desaparecidas no Banco de Perfis Genéticos para posterior confronto com as amostras de corpos não identificados, ossadas ou pessoas internadas sem memória.

    A delegada Ana Cristina revela que “esse banco [genético] é aqui na Bahia, mas ele é nacional. Então, a gente já teve o caso de uma pessoa que tinha desaparecido de Goiânia”.

    “Ele desapareceu de Goiânia, a família tinha feito a coleta do material e, depois que se fez a necropsia, descobriu-se que ele tinha sido vítima de homicídio em Santa Maria da Vitória. Eu lembro que nós comemoramos no sentido de dar um retorno à família, que realmente descobriu onde o corpo estava e teve o direito de fazer um sepultamento. Há também uma situação reflexa em relação à investigação de Santa Maria da Vitória, porque até então não se tinha informações de quem era aquela pessoa”, explica a titular do DPP.

    Para além das buscas, a delegada comenta sobre um gargalo nos procedimentos de desaparecimento: a comunicação da localização. “Eu peço encarecidamente também ao comunicante, principalmente, ou a outros familiares que aqui tenham vindo prestar declarações, que quando essa pessoa for localizada, nós precisamos tomar conhecimento, porque é um trabalho que envolve vários órgãos. A gente tem a obrigação de dar baixa na localização na ocorrência”, ressalta.

    Segundo Ana Cristina, “essa não localização de uma pessoa que já retornou impacta negativamente, porque joga os números da Bahia lá em cima em questão de desaparecidos e não localizados”. “Quando a gente de vez em quando faz mutirões aqui somente para atualizar [os boletins], normalmente mais de 90% já retornou e não foi informado à delegacia, embora as pessoas saiam daqui já sabendo que, assim que forem localizadas, elas têm a obrigação de fazer a comunicação”.

    A titular do DPP afirma que já houve casos de duplo registro de desaparecimento, em datas e unidades distintas, pois a pessoa foi localizada e o fato não foi informado antes de ela desaparecer novamente.

    “O mais delicado e respeitoso com todo o trabalho que a gente faz aqui seria informar onde você registrou. Então, eu peço encarecidamente isso: quando tiverem o retorno do seu familiar, da pessoa desaparecida, comuniquem de imediato aqui no DPP”, conclui a delegada.

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